“Estou na Índia por questão de sobrevivência” disse Ahmed Kaiser, jovem iemenita. Ele tem 19 anos e há 7 meses, incontínuos, mora em Porvorim, bairro ao norte do estado de Goa, na Índia. Ahmed saiu do Iêmen fugido, como turista antes do prazo máximo de alistamento da milícia Huthis. Ele nasceu em Sanaa, capital do país. Filho de família rica, viu sua pátria ir de palácios suntuosos à ruínas. O Iêmen vive uma da maiores crises sociais do mundo. O país está dividido entre duas frentes políticas e militares, patrocinadas por duas potencias econômicas no mundo árabe, Irã e Arábia Saudita.

Ahmed Kaiser, ainda em Sanaa.

Ahmed fugiu do país com o primo, Qusai Kaiser. A mãe de Ahmed, que ele não quis falar o nome, por medo, estudou na Inglaterra para ser professora de inglês para adolescentes. Depois de formada ela voltou ao país para se casar com um de seus primos, arranjo feito pela própria família. Foi ela quem enviou o filho e sobrinho para a Índia, só com as passagens de ida. Ahmed e Qusai contam que sentem saudades, mas os vídeos que recebem de familiares os fazem permanecer viajando entre países da Ásia. Isso porque eles não conseguiram o visto de estudante, o que os obriga a sair do país a cada três meses.
Qusai Kaiser, já em Goa.

As questões burocráticas, que demandam tempo, fazem com que seja comum a entrada de jovens árabes apenas com o visto de turista, mesmo com a pretensão de permanência mais longa. Com isso muitos desses jovens vivem com o dinheiro que as famílias enviam, porque caso sejam flagrados trabalhando são deportados em até 24 horas segundo a lei. O que significaria prisão federal para os jovens do Iêmen, já que o país está com portos e aeroportos fechados e as saídas são só por vias clandestinas.
Essa rotina de viagens é muito comum entre os jovens árabes que fogem dos conflitos armados. Os primos Kaiser são só mais dois rapazes entre os muitos árabes que buscam na Índia uma porta para outros países. O roteiro mais comum é entrar na Índia como turista, matricular-se em um curso de língua inglesa, e a cada três meses viajar até o Nepal e depois de 24 horas voltar a Índia. A escolha pelo Nepal é justificada pela proximidade e  desvalorização do rupee nepalês, a moeda. Mas esse cenário é específico de Goa, já que o estado fica mais ao norte da Índia e é banhado pelo mar árabe.

Sala de aula, amigos de Ahmed.

Os primos Kaiser moram em um prédio que funciona como república para rapazes, em Porvorim, onde também está localizado o curso no qual eles estudam. A vizinhança é de maioria estudantil, já que o bairro é a capital legislativa do estado de Goa, e por conta disso é onde se encontra a maior concentração de escolas católicas. O que não é comum na Índia, já que o país é declarado como Estado confessional, de fé e cultura Indu. Isso significa que o Estado reconhece  uma só religião como oficial. Logo, outras religiões encontram embargos, de tipos diferentes, para ser professada. O que traz mais dificuldades para jovens árabes que são mulçumanos.            
Outro grupo que sofre com as leis hinduístas são os cristãos. Na Índia como um todo é proibido construir igrejas, mas em Goa esse cenário é um pouco diferente. Isso porque Goa foi sede do Estado Português na Índia desde 1510, até ser tomado por tropas indianas em 1961. Por conta da presença portuguesa há muitas igrejas católicas. Hoje essas construções fazem parte do Património da Humanidade pela UNESCO.
Uma das maneiras que alguns cristãos usam para driblar a proibição de evangelização é por meio dos orfanatos. O Little Angels Custodial Home For Children With Special Needs, Pequenos Anjos casa de custódia para crianças com necessidades especiais em português, é um desses. O responsável é um brasileiro, Pedro de Oliveira Lima. Pedro nasceu no Rio de Janeiro, estudou pedagogia e mudou-se para a Goa logo após casar com Genilda, em 1998. Eles não tiveram filhos biológicos mas de criação já foram mais de 72.    

Pedro e Genilda com parte das crianças. 

Hoje a casa hospeda 28 crianças, entre 4 e 16 anos. Além de Pedro e Genilda, outras três pessoas auxiliam no cuidado das crianças. Polina, Joel e Subash. Joel e Subash cresceram com Pedro e Genilda, hoje Joel é formado em Social Work pela Don Bosco University. Ele auxilia nas questões burocráticas e administrativas. Subash é o motorista, é ele quem leva e busca as crianças da escola. Polina é a cozinheira e está com as crianças desde 2005. Todos os três são indianos naturais do estado de Goa. 

Joel com Pedro e Genilda.

A casa é sustentada por igrejas protestantes no Brasil. Polina, Joel e Subash recebem pelo trabalho. Joel ganha 19 mil rupees indianos, o que equivale a mil reais. Subash e Polina recebem 15 mil rupees, cada, aproximadamente 790 reais.
“Eu ganho muito para a realidade da Índia, mas Goa não é Índia. Eu nasci onde Gandhi nasceu e lá não é bonito”, disse Subash que nasceu em Guzerate, quando questionado sobre o seu salário. Isso porque segundo estimativa da ONU 93 por cento da população indiana vive com menos de 3 doláres por dia. O que contrasta com o visual dos casarões coloniais de Goa. Para Pedro o abismo social que existe na Índia é só um reflexo da cultura. Isso porque, em alguns estados, ainda existe o sistema de castas. O que significa que a classe social da pessoa é definida no nascimento, com isso não há mobilidade entre as classes sociais. 

Subash com a moto que conseguiu comprar trabalhando como motorista.

Hojé a Índia é o segundo país mais populoso do mundo, perde apenas para a China. Segundo o senso de 2001 a população indiana já passa de um bilhão de habitantes. Histórias como as dos primos Kaiser, família Lima, Joel, Subash e Polina são apenas uma linha no grande tecido que é a Índia que Mahatma Gandhi ajudou a tecer e onde é ícone.




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